quarta-feira, 30 de março de 2011

O turista da Bela Vista (Grande Anália Franco)

José Fernando Joaquim é um rapaz pacato, típico pai de família. Gosta de curtir os dois filhos e a esposa. Sua maior diversão é ir ao shopping, fazer compras, comer, pegar um filme infantil no cinema. Para sua sorte, pertinho da sua casa, na Bela Vista, há inúmeras opções. A que ele mais gosta é o shopping Anália Franco, que ele diz que praticamente vai a pé. Se quiser variar, pode visitar o Aricanduva, o Plaza Sul e o Center Norte – todos a um pulinho de sua casa.

Jornalista e antenado, recentemente, ele ficou muito contente com a notícia de que um novo empreendimento comercial estava prestes a ser inaugurado na Grande São Paulo: um mega shopping na Rodovia Raposo Tavares. Ao ler a notícia, nosso querido José Fernando Joaquim exclamou para sua mulher: “Olha, amor, que ótima notícia. Do lado da nossa casa!”

A esposa Tincia, que conhece o marido de longa data, apenas assentiu com a cabeça: “Claro, amor. Pertinho...”, disse com um sorriso amarelo, já pensando na longa viagem aos sábados e domingos. Amar é, antes de tudo, saber o momento de agradar o companheiro, refletiu a resignada esposa. Meu marido gosta de fazer turismo urbano, o que eu posso fazer?, acrescentou mentalmente.

Mas nem tudo é um mar de rosas na vida de José Fernando Joaquim. Nos últimos tempos, ele vem tendo duas grandes preocupações: uma no trabalho e outra em casa. Detentor de um típico nome-triplo, ele se deparou, de uns meses para cá, com a inconveniente situação de não ter como ser chamado. Vive uma intensa crise de personalidade. Ocorre que a Redação já tinha um José e um Joaquim e, há cerca de dois meses, contrataram um tal de Fernando.

Agora, toda vez que alguém quer se comunicar com nosso José Fernando Joaquim, há uma dificuldade de saber com quem a pessoa está efetivamente falando. O chefe diz: “Oh, José.” Antes mesmo de ele responder, o outro José, do outro lado da sala, se antecipa e diz: “Pois não.”  O chefe, então, esclarece: “não, eu to falando com o Fernando”. Eis que antes de ele poder atender ao chamado superior, o tal do cara-novo o atropela: “Pode falar.” Impaciente, o chefe apela: “Eu to falando com o Joaquim.” Já incomodado, nosso protagonista estufa o peito e faz até esboço de levantar para responder ao chefe, mas antes que ele o faça, é interrompido pelo outro Joaquim: “Opa, to aqui. O que precisa, chefinho querido?”

O chefe, homem muito ocupado, desiste da ordem que queria passar – na verdade, nem lembra. Enquanto tentava falar com o José Fernando Joaquim, foi chamado às pressas pelo governante da redação. Teve que sair correndo, deixando o enrosco dos nomes para trás.

A aflição em casa é ainda maior. Ocorre que, depois de uma militância árdua em assembléias de condomínio, ele conseguiu convencer os moradores do seu prédio – aquele, na região da grande Anália Franco – a não aderir à proposta de colocação de antena de operadora de celular no topo do edifício. “Isso aí traz doença e ainda danifica a estrutura do prédio”, bradava na reunião, para desespero da síndica, que via na antena uma possibilidade de aumentar a receita do condomínio. “Todo mundo fala que é um perigo! Sabe deus quantas doenças esses raios podem trazer para nós.”

Apesar da vitória, outro dia ele foi surpreendido com um comunicado colocado no elevador pela já desafeta síndica. Ela informava que, depois da resistência liderada pelo nosso Zé Joaquim, a operadora foi fazer a oferta para o prédio vizinho – que aceitou. Sem poder interferir, ele agora se vê em maus lençóis. O prédio vai ter que conviver com o efeito perigoso e incerto das ondas celulares, sem que isso ao menos represente diminuição nas contas no fim do mês. Vingativa, a síndica vai fazer questão de deixar isso bem claro aos moradores na próxima assembléia. É bom o nosso Zé começar a pensar em um bom lugar para se esconder – dos raios e dos vizinhos, doentes e doídos no bolso.

Já deixamos uma dica: que tal no shopping Anália Franco? Com certeza, nenhum vizinho pensará em procurar lá!

turista da Bela Vista é mais um conto da série Os Paulistas

quarta-feira, 16 de março de 2011

A garota do Púlpito

Atendendo a pedidos, Os Paulistas abrem novamente o espaço para as mulheres. Pois sem elas, as histórias perderiam a graça.


Carmem era uma garota encantadora. Com os brilhos nos olhos e o jeito de menina, chamava a atenção por onde passava. Simpática ao extremo, logo cresceu na profissão.

Carmem era a assessora de imprensa do cantor Amado Batista. Ela o acompanhava em seus shows e turnês e, claro, organizava a parte de imprensa.  Para onde ela ia, levava o púlpito que seria usado nas coletivas de imprensa. O objeto, que serve para encaixar os microfones e gravadores, já era praticamente uma pessoa da sua família.

Por falar em família, o pai de Carmem, um famoso general da Tropa de Choque dos Amigos dos Surfistas da Baixada Santista, sempre dizia a filha que se algum dia levasse um namorado em casa, ele o receberia com o armamento mais pesado que possuía. Carmem apenas sorria quando o pai falava isto e achava que era brincadeira.

Era comum o general Torres aparecer sem avisar nas coletivas ou no escritório do cantor apenas para conhecer os homens que trabalhavam com sua filha. Seus colegas de trabalho entendiam o recado e nenhum nunca ousou sequer em chamar Carmem para um café.

Certo dia, em um dos shows do Amado Batista no piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro, Carmem estava armando o púlpito para a coletiva quando foi abordada por Ivan, um carioca sarado e fã de Amado Batista.

A química rolou naturalmente. Foi amor mesmo. Pareciam que se conheciam há anos. Trocaram telefone e no dia seguinte combinaram de se encontrar em Jacarepaguá. Tomando uma caipirinha de 51 em um bar, Ivan olhando nos olhos de Carmem cantou um trecho da música “Princesa” de Amado Batista:


Ao te ver pela primeira vez

Eu tremi todo

Uma coisa tomou conta
Do meu coração
Com esse olhar meigo de menina
Me fez nascer no peito, esta paixão
E agora não durmo direito
Pensando em você
Lembrando os seus olhos bonitos

Derretida, ela o convidou para vir a São Paulo conhecer sua família. Eles cantavam juntos músicas de Amado Batista, como “Fruto do Nosso Amor”, “Menina Meu Amor”,  e “Olhos Verdes”:


esses olhos verdes

que olham pra mim

enfeitam seu rosto
e me deixam assim
  
No trajeto Carmem repetia inúmeras vezes que o pai era turrão, um general bravo, mas que tinha bom coração. Que ele não precisaria ficar preocupado. Era apenas tipo de mau que ele gostava de fazer.

 Quando Ivan chegou para conhecer o pai de Carmem, ele o aguardava com uma pistola. Tiros foram ouvidos. O rapaz saiu correndo e nunca mais pisou em São Paulo. O pai, orgulhoso, abriu uma garrafa de vinho e com um sorriso enorme contava à esposa: "Com a minha filhinha ninguém mexe". 

A vizinha conta que Carmem nunca mais viu o rapaz e que a música “Meu Ex-Amor” de Amado Batista não para de tocar do quarto da linda moça.


“Eu tive um amor

amor tão bonito,

daqueles que matam
com sabor de saudade,
meu ex-amor
tem coisas que a gente não esquece,
mas você não merece
tanta dor,
foi bonito demais
mas eu estou sozinho
foi rico de amor
e hoje estou tão só.”


A Garota do Púlpito é mais um conto da série Os Paulistas. 



quarta-feira, 2 de março de 2011

O sheik manso de Moema

Biógrafos têm dessas: gastam tempo demais com as fanfarrices de coronéis corruptos ou as estripulias de barões mulherengos e deixam de lado os pequenos notáveis. Parou para pensar numa sinfonia sem carregador de piano? Nesta semana, Os Paulistas é especialmente dedicado a contar a história de Abelardo Trenttini. “O sheik manso de Moema” é um personagem indispensável para a história da televisão brasileira. Pode-se dizer que sua vida está para a telinha assim como a ressaca está para o envazador de garrafas.

O começo da saga de nosso personagem é incerto, mas o que ninguém põe dúvida é na sua participação naquela noite de 3 de abril de 1950. Doutor Assis recebia convivas dos mais recônditos cantos do Brasil no saguão dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, com toda a pompa e circunstância que a chegada da televisão representava. A festa rolava solta, mas Trenttini não tinha tempo para delongas. Ele era assistente de iluminação pleno 2 A, cargo especialmente criado pelo Doutor Assis para acomodar o suposto conterrâneo. “Bons contatos eu tenho. Se fizer um bom trabalho, me garanto”, Trenttini repetia para si mesmo enquanto ajeitava o pesado equipamento prestes a ser usado pela primeira vez. Trenttini já sonhava com o dia em que seria promovido a assistente de iluminação pleno 2 B.

O uísque 12 anos já deixava suas marcas pelo salão quando Abelardo foi surpreendido por um olhar feminino. Era uma coisa indubitável, daquelas que não remoem a menor desconfiança. “A senhorita Hebe cismou comigo”, resmungou sozinho. A futura dama das noites de segunda, famosas pelos selinhos nos convidados, foi direto ao ponto. “Quero ter contigo”. E assim foram às vias de fato, lá mesmo no prédio-sede do império de Doutor Assis.

Depois daquela longa e animada noite, Abelardo não teve dúvidas. Sua carreira teria um único rumo: os bastidores da televisão brasileira. E lá foi ele, trocando os pneus do Simca Chambord do Vigilante Rodoviário, decupando as fitas do Repórter Esso, envernizando as Portas da Esperança. Galgando posto acima de posto, pulou da Tupi para a Excelsior, da TVS para a Manchete. As mudanças, sempre para o alto, vieram na mesma velocidade com que as senhoritas lhe eram dóceis. Bastava estufar o peito e exibir aquele crachá com foto em preto e branco ao lado do logotipo da TV que não havia quem resistisse.

Tudo era festa – e quanto mais incendiária melhor. Chegou a trabalhar em duas emissoras para apaziguar o time feminino. Mas o melhor mesmo eram as manhãs de domingo. Trenttini não se continha tamanha a ansiedade pelas doces e suculentas manhãs de domingo! No final de semana, seu patrão tinha um programa longo, que ocupava mais de doze horas da programação do canal, que, aliás, era dele.

Havia uma infinidade de programas de auditório e, portanto, uma infinidade de lugares a serem preenchidos por mulheres bonitas. Trenttini driblava os recrutadores, fazendo sua própria triagem. “Venha fazer um misto quente lá em casa, depois te boto na primeira fila”. A escapadela não demorava meia hora, tamanha a volúpia de nosso personagem. Tão logo retornavam, a moçoila, já perfumada e de banho tomado, não só estava na primeira fila como ainda ganhava aviõezinhos de cruzados novos.

A fama foi se espalhando e Trenttini já era referência nas artes do baixo ventre. Dizem as más línguas que mesmo Fernandinha Moto-Serra e Ashley Boka-Loka fizeram questão de conhecer os predicados “daquele rapaz da televisão”. Só que nem tudo são flores nessa vida, e um dia o mundo resolve dar meia volta (com o perdão do trocadilho).

Certa feita, já tarde da noite, o expediente teve de se alongar por mais um tento, e não houve saída: “bora achar uma birosca para comer aquele rango”, ouviu-se em coro no estúdio. Sabe-se lá o que houve, talvez era mesmo muita chuva, mas o fato é que não acharam nem um churrasquinho grego para frear o estômago. Foi Trenttini quem deu a idéia: “vamos voltar, tenho um plano”. Chegando na emissora, nosso personagem abriu as portas de um estúdio diferente daquele onde trabalhavam. No começo, ninguém entendeu nada, mas, aos poucos, a solução mirabolante de Trenttini começava a fazer sentido. A trupe mataria a fome no estúdio da Ofélia! Estava tudo lá no estúdio da “musa” da culinária em 14 polegadas: panelas, pratos, talheres, ingredientes e até mesmo as receitas! “É claro que não vamos fazer leitão à pururuca agora que já é quase de manhã. Uma boa macarronada já quebra o galho”, resumiu o intrépido funcionário da TV – a esta altura, já um exímio diretor de imagem.

Logo o sol se levantou mas, sorte do grupo, nenhuma desconfiança veio junto. Passaram-se os dias e tudo transcorria bem, até que Abelardo Trenttini foi fazer valer diante de Glorinha, nova estagiária do RH. Foi um fracasso. A coisa não andou. Teve de sair apressado e culpar o chefe para evitar vexame maior. Pensou tratar-se de exceção, mas a coisa voltou a se repetir.

E repetiu-se tanto que teve de pedir socorro ao médico. “Doutor, nem frango assado, nem sorvete de creme! Nada me faz pedir um café e acender um cigarro”. Tomou remédio, fez terapia, pagou promessa, entrou na yoga. E nada. A fama que tanto lhe satisfazia já tinha cara de calendário do ano passado.

A vida seguiu. E Abelardo Trenttini não se deixou levar. Para compensar aquilo que lhe tiraram, passou a se cercar de belas mulheres. “É uma coisa meio marajá de Lisboa”, resumiu a um amigo, “tenho oito empregos e um salário”. Virou um sheik manso, um leão vegetariano, uma espécie de lobo a pastar tranqüilo, indiferente às ovelhas. Havia um harém a sua volta, mas apenas para o deleite visual. Assim, na falta de melhor diversão, aproveitou para fazer graça. “Deus é justo, mas essa tua saia!” repetia sempre que podia – ou não.

Dias desses, ao ler no jornal a coluna das fofocas, teve um estalo. Desses de dar tremedeira. Então rugiu: “Ofélia!”. Rugiu, não. Vociferou. E pôs-se a pensar que talvez todos aqueles anos no banco de reservas tenham origem naquela fatídica “noite da macarronada encantada”. Aquilo era veneno, concluiu.

Então não perdeu tempo. Foi tomar satisfação com a rainha da buchada de bode. Entrou escancarando as portas da TV Gazeta, invadiu o estúdio C e foi direto ao ponto: deu de dedo na mulher bem na hora de polvilhar a massa.

Aos berros, contou tim-tim por tim-tim o que lhe acontecera nos últimos anos. A angústia de atuar como gandula por tanto tempo. E eis que... Ouvindo tudo o que o Manso de Moema tinha a dizer, a dama da colher de pau não escondeu o sorriso no fundo da boca. “Tenho a tampa de sua panela. Venha buscar”, sussurrou Ofélia ao pé do ouvido de nosso personagem.

Fizeram gemada.

E não foi apenas a melhor gemada que Abelardo Trenttini já tinha feito, como também a primeira de muitas com Ofélia. E não só com Ofélia, mas com todo o harém que lhe rodeava.


O sheik manso de Moema é mais um conto da série de Os Paulistas.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O fúnebre da Consolação


Claudecir não pertencia a nenhum grupo nem seita. Não gostava de filmes de terror nem achava graça ouvir histórias de fantasmas. Não era fã de Crepúsculo, Blade ou Van Helsing. Mas uma grande decepção amorosa fez com que o rapaz cultivasse um hábito um tanto quanto incomum: fanatismo por cemitérios.

Natural de Americana, uma das cidades satélite da Grande Pinhalzinho, Claudecir começou a ser mal visto na vizinhança pelo seu hábito incomum. Na verdade, ele jamais revelou que o seu gosto funesto era fruto de uma desilusão amorosa. Cansado da perseguição, o pobre resolveu mudar para a cidade grande. O destino escolhido, São Paulo, mais especificamente na região da Consolação, área conhecida pela grande concentração de cemitérios.

Diferentemente do que se imaginava, a devoção de Claudecir pelo mundo dos mortos não parou de crescer em São Paulo. Ao contrário, com acesso as mais recentes tecnologias, ele passou a difundir suas impressões do lar dos “pés juntos” nas redes sociais. No Orkut, criou a comunidade “Eu já tirei fotos no cemitério”, destinada a quem adora tirar fotos e andar por cemitérios. No facebook foi a “Cemitério, meu habitat natural”. Até mesmo no Linkedin, o pobre criou uma comunidade: Sematery Club.

Alguns amigos próximos, como o Muambeiro do Jabaquara, afirmam que o pobre tentou, sem sucesso, criar um perfil fúnebre num site de relacionamento, mas os resultados foram pouco produtivos. Já desgastado e desgostoso da vida por conta dessa mania solitária, Claudecir se entregou à bebida.

Foi nessa época que o rapaz chegou ao fundo do poço. Passava as noites vagando de bar em bar tomando todas, de Fogo Paulista a passe de mãe de santo. Quando era expulso de um bar, sentava-se no primeiro que avistasse a fim de continuar a bebedeira. Foi numa dessas vezes que Claudecir conheceu Afonso, um rapaz que assistir vídeos eróticos de rapazes como forma de terapia.

Com medo de chegar nesse ponto, Claudecir tentou uma última cartada: fazer um anúncio romântico na internet. Sua tentativa desesperada foi a criação de mais uma comunidade na internet, batizada carinhosamente de “Quero Casar no Cemitério”. Para muitos, mais uma ideia sem sentido, porém, o tempo provou que os amigos estavam errados. A comunidade se transformou num hit da internet com mais de 1.000 seguidores (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=15103752)

Mais do que amigos, a comunidade rendeu a Claudecir uma paquera: Ivonete, que assinava com o singelo pseudônimo de Mortícia na comunidade. Dos passeios a luz do luar pelas alamedas dos mais variados cemitérios da cidade, nasceu um amor profundo que resultaria em casamento, que obviamente teria de ser realizado nas dependências de um cemitério. O pedido de casamento foi um caso à parte: num dia de finados, Claudecir pediu a mão da moça em casamento em pleno cemitério do Araçá. 


Para celebrar a data, ele oferece a Mortícia uma paçoquinha “Amor”, a preferida da moça. Ele disse a ela que guardava aquela guloseima há anos a espera da mulher amada. Isso era mentira, mas ela não precisava saber. Na verdade, Claudecir havia ganhado o doce de troco após o almoço no mortal restaurante Santa Helena.


Pedido feito e aceito, era a hora de acertar os detalhes para a celebração no cemitério. Mas o destino quis pregar uma peça no casal. Nenhuma administração dos cemitérios da capital autorizava essa sandice. Foi então que Claudecir teve uma ideia brilhante. Forjar uma festa em um cemitério e assim celebrar o casamento.

Com a ajuda de amigos engajados na vida pública, Claudecir conseguiu uma audiência com o prefeito de Americana e propôs a ele uma homenagem às bravas famílias norte-americanas que no século passado imigraram para a região. O chefe do poder público municipal achou ótima a ideia de homenagear os ancestrais e nem se deu conta que havia autorizado uma festa cemitério municipal.

De posse da autorização, Claudecir tratou de correr com os preparativos do casório, quero dizer, da festa em homenagem aos ancestrais. Trabalhou junto aos colegas de imprensa e conseguiu convencê-los a participarem da festa como repórteres, com direito a cinegrafista, fotógrafo e tudo mais.

Para justificar ao prefeito a festa, contratou algumas moças e as vestiu de Scarlet O’Hara. Elegantemente trajadas, as moças recepcionavam os convidados do noivo e da noiva. 


Além dos colegas de imprensa que chegaram a recepção devidamente uniformizados e com todo aparato tecnológico à disposição, os demais convidados também foram orientados a utilizar roupas de época, a fim de dar um ar nobre a festa. Com todo circo armado, Claudecir convocou o prefeito que chegou à festa e se espantou com tamanha repercussão. Nunca havia visto tanto jornalista e político juntos num mesmo ambiente sem que um não tivesse incomodando o outro

A cerimônia do casamento foi super simples, mas a festa foi um arraso. Todos os convidados, vestidos à caráter, dançaram quase até a morte ao som da DJ Vovó Mafalda que arrebentava nas pick-ups ao som de “Tumba Lá Catumba, Tumba Tá” e “Um Morto Muito Louco”, clássicos da juventude dos noivos.

"vamos mexer o esqueleto", “vamos beber até cair duro” eram alguns gritos que se ouvia durante a festa.

Ao final da cerimônia, o prefeito, ainda atordoado pelo sucesso da festa e um pouco alterado pelo excesso de drinks, abraçou efusivamente Claudecir e agradeceu ao jovem, afirmando que aquela festa entraria no calendário oficial de comemorações da cidade. Claudecir deu de ombros, achando que se tratava de uma brincadeira do prefeito e partiu para sua lua de mel no cemitério da Recoleta em Buenos Aires.

De volta ao Brasil, Claudecir foi nomeado assessor especial do prefeito para organização de festas e cerimônias oficiais. A festa no cemitério foi realmente incluída no calendário oficial da cidade sobre a alcunha de Festa dos Confederados, mas, na verdade, ela comemora uma só data: a união funesta de Claudecir e Mortícia.



O Funebre da Consolação é mais um conto de “Os Paulistas” baseado em uma história real:

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Curioso de Higienópolis


Manolo Cornélius van Braulius vem de uma típica família alemã originária de Pfalz, região produtora de vinho na Alemanha. Nascido em Joinville , um grande pólo econômico de Santa Catarina, Manolo se mudou para São Paulo depois que se formou na faculdade de fotografia.

Van Bráulio, como era chamado pelos colegas do sul, tinha uma característica muito marcante: a curiosidade. Em poucos meses em São Paulo já conhecia a cidade muito melhor que muitos paulistanos. Andava para cima e para baixo tirando fotos da cidade, conhecendo todos os cartões-postais e fazendo amigos. Esse sabia conhecer gente.

Sua curiosidade era tanta que vivia no Google. Quando ouvia alguém comentar algo ou lia alguma coisa interessante ou que não conhecia nos jornais, já buscava mais informações no site de busca. No Twitter seguia todos os tipos de pessoas desde Dalai Lama a Britney Spears. O objetivo era ter informações, conhecer o mundo e saber de quase tudo.

Uma vez ele viu no jornal a propaganda de uma feira erótica em São Paulo. A curiosidade tomou conta. Ele não se agüentou e convidou a esposa, Rebeka, para ir com ele. A princípio disse que seria apenas uma feira de artigos, como um sex shop. Chegando lá, se depararam com stands de lojas de artigos sexuais e com performances de garotas e garotos.

Curioso como sempre, Manolo parou em todas as stands e pegou informações de todos os produtos, sem contar com as fotos curiosas que tirava.  Quando chegou no galpão B que tinha performances de stripers e de gogo boys foi surpreendido com um pedido da esposa:

“Brau, vamos nos separar para conseguirmos ver todas as novidades dessa feira? A gente se encontra daqui a 2 horas no Café lá do estacionamento”

E assim foi, Manolo seguiu para o lado esquerdo da feira e Rebeka para o lado direito. Manolo não acreditava no que via, a cada passo naquela feira era uma novidade, uma performance, um joguinho. ..... Fotos e fotos tiradas. Nessa hora, ele já agradecia aos céus de sua esposa ter tido a idéia de se separar.

No corredor C do galpão, Manolo ouviu uma música de longe. Conforme ia andando pelo corredor o som ia ficando mais alto. Era uma batida de música eletrônica com gritaria feminina. Atrás da cortina vermelha um palco, um Zorro sem camisa e uma dezena de mulheres se estapeando para chegar perto.  Deu uma boa olhada na platéia e ficou aliviado por ver que sua esposa não estava por lá. Até bateu um arrependimento por ter perdido tanto tempo no stand 75, palco de stripers.

Curioso, Manolo ficou sentado observando o show, as mulheres enlouquecidas e a criatividade das fantasias daqueles homens sarados. Sem perceber a hora passar, ele já tinha descoberto no Google, via celular, que o striptease surgiu em 1917 nos Estados Unidos.

Enquanto isso, sua esposa cansada de esperar por Manolo no Café do estacionamento decidiu voltar para a feira para encontrar o marido perdido. Atraída pelo mesmo som vindo do fundo do corredor C, Rebeka entrou e viu seu marido sentado ao lado do palco observando a performance do bombeiro.

Sem acreditar no que via, vendo o interesse do maridão no show dos garotões, Rebeka enfurecida, pulou no palco, colocou notas na sunga do bombeiro e dançou ao lado do fortão por mais de 20 minutos. Foi o tempo que Manolo demorou para deixar de prestar atenção no movimento ao redor e nas informações do Google e perceber que sua esposa estava dançando no palco.  Curioso como é, Manolo Cornélius van Braulius decidiu ver como essa história terminaria, inclinou-se na cadeira, colocou o pé na cadeira da frente e viu o show até o final.

Hoje, Manolo e a esposa têm um segredinho.  De 15 em 15 dias, ele se veste de bombeiro, sobe em cima da cama e dança por horas para agradar a amada. Dizem os vizinhos que a música do Joe Cocker - You can leave you hat on  é tocada na altura máxima e que gritos como "tá pegando fogo" são ouvidos por toda a madrugada.

O Curioso de Higienópolis é mais um conto da série os Paulistas. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O MARIDÃO DA VILA MARIANA

Mário era um cara bem tranquilo, 28 anos, casado e bom entendedor de política. Sempre de olho do D.O., nos jornais, nos programas de rádio e TV. Casado com Joyce, jornalista de um grande portal de notícias, estava sempre atualizado com as últimas do dia.

Ele passou por um momento de indefinição na sua vida, sem saber o rumo profissional a ser tomado. Seus patrões não sabiam se queriam continuar com ele e isso afetou muito seu jeito de ser. Começou a não ter horário para entrar no trabalho, batia o cartão e sumia. Segundo ele, era melhor não estar visível para não lembrar que queriam demiti-lo. Começou a trabalhar em um lugar escondido no estacionamento da empresa e também em uma das cabines do banheiro. Estava certo que essa era melhor alternativa, ficar “invisível”. Durante dois meses ele batia o cartão, mas ninguém o via na repartição.

E a fórmula funcionou, Mário foi mantido no emprego e viu seu colega de mesa ser dispensado. Estava radiante, mandou um email para todos os amigos para convidá-los para uma cervejada e comemorar o emprego mantido. Tudo estava voltando ao normal.

Ele só foi pego de surpresa quando soube que sua esposa foi enviada ao Rio de Janeiro para cobrir os trabalhos de resgate das vítimas das chuvas na região serrana. Com o caos que tomou conta da região, ela foi obrigada a se alojar no 18º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Petrópolis. A corporação era conhecida como “Surfistas do Bem”, pois a grande maioria dos profissionais era composta por surfistas sarados e cheios de boas intenções.

Todos os dias, Mário acompanhava a cobertura feita pela esposa no site de notícias. Achava super bacana o trabalho de Joyce, mas também preocupado com os riscos de uma outra forte chuva.

Em uma dessas matérias publicadas, havia uma foto da repórter mostrando a área destruída pelas chuvas. Mário, observador que é, percebeu que a esposa saiu de "papagaio de pirata" no fundo da foto e viu dois roxos na esposa, um na perna e outra no braço.

Preocupado, imediatamente ligou para a esposa para saber se ela estava bem, se estava passando por alguma dificuldade. Questionada sobre os dois roxos no corpo, Joyce explicou que foi provocado pelo tenente Paulão, que a segurou quando ela quase caiu de uma ribanceira. “Ele salvou minha vida. Devo muito a ele”.

As chuvas deram uma trégua, o sol voltou a brilhar no Rio de Janeiro, os trabalhos de buscas já se encerraram, mas mesmo assim, dois meses depois, Joyce segue acampada no Batalhão do Corpo de Bombeiros sem data prevista para retornar a São Paulo. Ela mudou o foco de suas matérias, ao invés de cobrir as chuvas e mostrar o drama das famílias desabrigadas, a jovem jornalista agora só escreve sobre os atos heróicos do Batalhão e sobre a preparação destes profissionais para as situações de emergência. Vira e mexe Joyce está na academia com eles ou até mesmo fazendo uma sauninha com a turma após os treinamentos.

Para Mário, segue o consolo de que ela continua escrevendo sobre a força e a coragem dos bombeiros cariocas. Ele morre de orgulho dela. Na semana passada, em um jantar com os amigos, ele contou com um belo sorriso no rosto que Joyce, pelo trabalho realizado no Rio, recebeu um convite para se tornar correspondente do portal na cidade. “Esta é minha mulher, uma baita profissional. Faz qualquer coisa para emplacar uma boa matéria”. 


"O Maridão da Vila Mariana" é mais um conto da série "Os Paulistas".

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Sorriso de Interlagos

Gilberto era querido por toda a turma. Morador de Interlagos, na capital, colecionava amigos por onde ia. Um rapaz nobre e cativante. Quando se sentava em uma mesa de bar então era aquela farra, histórias e mais histórias engraçadas, sempre acompanhadas de uma boa cerveja gelada e uma porção de amendoim da marca Cabreras, sua preferida.

Em 2007, quando trabalhava em uma agência de comunicação, conheceu alguns “figuras” da cidade mineira de Quatro Pontas, um lugar bonito e harmônico no sul de Minas Gerais. O local, além de suas belezas naturais, é conhecido pela formação de grandes músicos.

Com a afinidade dos mineiros, não demorou muito para que Gilberto recebesse o primeiro convite dos amigos de Quatro Pontas para conhecer a cidade em um feriado prolongado. Ele ficou maravilhado pela hospitalidade, pela cultura e pelas amizades, que cada vez mais aumentavam.

Em sua nona ida a Quatro Pontas, Gilberto teve uma surpresa. Os amigos locais, muitos deles músicos amadores, tinham sido convidados para participar de uma gravação com nada mais nada menos de que Gilson Nascimento, um dos principais nomes da música popular brasileira. Gilson nasceu em Quatro Pontas e sempre teve um sonho de gravar um disco com os jovens da cidade.

E assim foi feito. Numa tarde de sol em cima de uma montanha, foi montado um pequeno estúdio ao ar livre e ali por longas horas Gilson Nascimento e os jovens músicos foram tocando e se entrosando. Gilberto também não ficou de fora e logo já cantava seus primeiros refrões com a turma: “amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves”.

Desde o começo do encontro, Gilson Nascimento havia demonstrado um carinho e um encanto enorme por Gilberto. Logo que o conheceu, já perguntou seu nome e sua idade. E as afinidades foram só aumentando durante a noite.

Numa certa hora da madrugada Gilberto e Gilson saíram juntos para comprar mais cerveja e fumar um cigarrinho de palha. O veterano da MPB queria mostrar sua cidade ao novato. Após 4 horas eles voltaram felizes da vida, rindo à toa e já até um pouco alterados alcoolicamente. Os amigos estranharam a demora da dupla, mas não comentaram nada.

E o tempo passou, mas a amizade de Gilberto e Gilson Nascimento não foi passageira. Eles continuaram se falando, sempre com o mesmo carinho do dia que se conheceram.

No final da última primavera, Gilson Nascimento lançou o seu novo álbum somente com músicas gravadas com os músicos de Quatro Pontas. Em um domingo de manhã, Gilberto recebeu o presente enviado pelo amigo em casa.

Ao abrir a caixa do CD, Gilberto se surpreendeu com a dedicatória impressa na capa: “Querido amigo, a faixa 7 – chamada Sorriso - eu fiz especialmente para você para comemorar aquela noite inesquecível”.

O Sorriso de Interlagos é mais um conto da série “Os Paulistas”